- sem título -

abraç'o cão de dent'às vezes...
mord'o anjo, sangro ele.
aí me deito no anj'e sorrio, ele m'abençoa
e eu mat'o cão c'um beijo.

paro



caminhando em linhas de mãos,
perdi os passos entre cheiros e cabelos
e lembranças, sal de lágrima, rasgos de riso,
lençóis limpos.
em todo póro me afoguei.

hoje, já ao fim d'uma primeira linha
sei
que se a mão não enruga
encontro saída em
outra primeira linha.

as linhas das mãos não são só três.

canção de saudade em inho

eu com vontade de teu carinho,
ô meu pretinho,
querendo dengo,
ser teu xodó...
tu bem podia ser passarinho,
migrar rebelde pro meu ladinho,
pousar levinho no meu cangote.

sem pressa

ando
devagar
divagando

- sem título -

a coisa mais perfumada é o cabelo.
depois a pele.
depois a alma.

a aura é inodora.
mas - apesar da sombra de mistério -
é furtacor.

notívaga







minha noite é quieta
solitária

longa noite vaga

- sem título -

- a gente tá resolvendo as coisas da separação:
quem fica com a casa,
quem fica com o coração.

- sem título -

viva à diversão
vazia e diversa

que um amor especial guardado de magoado
já tenho

e já esta pele
não se queima com faísca de paixão


não há lágrima no chão
que a farra peça

só o peito ferido ocultado
com empenho

e um corpo que não repele
nenhum objeto de predileção

anda

te carrego até a saída:
- toma de volta as pernas que escondi na entrada
e devolve logo as chaves todas de minha porta.


- sem título -

não imaginava que tipo de força a matinha de pé. esperava o grito e não o ouvia; esperava a lágrima que não vinha. guardava a dor, solitária.

o verme crescia na garganta enquanto ela calava e a morte chegava devagar como solução para a traição - mil punhaladas com lâmina cega pelas costas. o sangue vivo no corpo morto, fervendo, pulsava mais branco que vermelho. e a vida, que deveria ser colorida, passava monocromática e sem dó de fazê-la flor despetalada.

eu, o frio e a noite e o dia

resolvi entregar meu corpo ao frio e ele foi o único que soube me aquecer esta noite. a luz, em sua ausência, destruiu todo o branco e tudo permaneceu negro e o negro foi completamente. fomos eu, o frio e a noite um só - un ménage à trois. não houve discriminação, não havia cor, não havia textura que pudesse se impedir, que não se pudesse tocar plenamente. e no escuro e sobre minha cama fomos iguais.

não dormi à noite; não pude. só a claridade, pra mostrar que cara tenho, assustou a noite que se foi com o frio, fazendo de mim pedaço de um todo, largando-me com o que, então, o espelho pôde revelar: alguém pior, à mercê das medidas que quiserem atribuir. jamais a noite se negaria a meus cabelos ou o frio a meus peitos ou à incertitude de uma madrugada disforme, posto que se fazia naquele quarto cárcere de vida qualquer coisa que jamais seria imagem e que me engolia a mim e a todos os meus lixos. o dia, ó dia, veio separatista, excluindo tudo de tudo, definindo um mundo de cores e formas delineadas em que, apesar de tudo, ninguém se vê mesmo.

sem perdão

sentei-me, por muito tempo,
à esquina do amargo orgulho...
e de não provar mais cheiro, abraço ou beijo,
não sabia mais retribuir o mais sincero sorriso.

s a u - d a - d e

d o - e u

l e n - t o

e m - m i m

v ê - l o

s o r- r i r - e

n ã o

s a - b e r

m a i s - a - b r a - ç á - l o

d'um ideal sem efeito ou automutilação

o prazer atrofiou
escondido
nos peitos frustrados,
negados e renegados,
denegridos, amaldiçoados.

dois ínfimos segredos
- tão absolutos,
tão absurdos,
tão obsoletos
e mutilados e desmembrantes e constrangidos -

sedentos pelo desejo
em que possam ser guardados,
esperam ávidos um par de mãos devotas
que os tome por bastantes,
endoidecidamente;

para se verem
perfeitos sob a gravidade,
entre dedos, dentes,
olhos e pensamento
monopoliteístas.

- sem título -

é faca manobrada
por mão em sombra,
o meu amor.

sem razão,
puro instinto:
sem dor
sem pena
- mas ninguém sente mais que eu.

meu amor
não me guia,
posto que, sendo um guia,
respeitaria meu querer, mas não:
puxa meu braço e se
apodera dos meus passos e dedos e bocas;

leva o bom-senso e,
sem me importar,
estou de pernas abertas
e seio exposto em tripas
satisfazendo o desejo de Vênus
sobre o tapete
púrpuro,
sob uma chuva de putaria que o
espírito quer desconhecer
enquanto gozamos juntos

e depois choramos.

meu coração


tu me deu o coração que tinha:
sangrado;
aquele que, tantas vezes dado,
fora o mais surrado
e entre todos os enganos,
descobertas, prazeres, vícios
e todas as coisas virtuosas,
o mais ferido e o mais cicatrizado;
sacrificado, encarnescido, pequeno
e fraco e forte e foda e fodido e vivo.

ora pulsante, ora inerte,
- inerente;
o que tu fez questão de dar, posto
que era o que tu tinha.

deve ser bastante.

- sem título -

não sabe que alma é essa,
a que vestiu.
vestiu outra alma
- uma podre, velha e triste
alma.



- sem título -

nas línguas de todos os nossos beijos
letras intraduzidas introduzem
música cujas notas não estão
para pequeníssimos rodapés

nos enlaces de tantos beiços doidos
cad'estampido se faz incontido
e tudo qu'é mão passeia uns dois corpos
cujo desejo é musicado em ré

já nem uma linha jaz escondida
toda tesura que vem escarnifica
as nossas costas de sonho em unha

em meu útero o teu fluido ciranda
enquant'o coral de músculos canta
os versos soltos que um corpo compunha

- sem título -



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estes dias

os dias não passam mais loucos
estão todos bêbados
arrastando as horas pelas calçadas
matando o tempo

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